Por favor, chuva ruim




Por favor, chuva ruim

Edição: Rafael Brandimarti


Depois de um extenso período de seca, a chuva volta a cair.
Primeiro, tímida.
Em gotas formatadas como pontos discerníveis ao observador que abaixa a cabeça rapidamente, para se adiantar à futura gravidade da matéria que vem do céu.
Depois, torrencial. 
Não mais em pontos. Apenas em retas, em cilindros. Duas ou três dimensões de líquido já querendo ser mais sólido que o chão no qual cavamos nosso destino.
E agora que a tempestade veio firme, tão teimosa e tão pesada, o que fazer?

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Nem mesmo aqueles poucos xamãs que conhecem a dança da chuva se atrevem a intervir.
Eu mesmo conversei com um xamã, o mais sábio dentre todos, e ele me garantiu que não poderia parar a chuva neste momento, não da forma como ela se apresenta.
Assim como também não poderia despertar chuva alguma em meio ao âmago da seca de outrora, já esquecida. 
Ou até poderia, mas apenas como último recurso. Tamanho desafio à natureza das coisas drenaria do xamã quaisquer resquícios da parca energia vital que ainda lhe resta.
O esforço necessário para evocar a contramão dos extremos climáticos é grande demais, mesmo diante da ganância habitual dos homens.
O xamã sabe disso, e decide não interferir em uma tempestade nascida do ventre da estação chuvosa.
Se você anda conversando demais com gerentes de banco ou agentes autônomos, experimente rever suas companhias.
Sintonize agora mesmo no canal de Instagram do seu xamã preferido.
Ele vai lhe explicar que é preciso respeitar um mercado tomado pela seca ou pela tempestade.
O Ibovespa que perde os 100 mil pontos não vai imediatamente para os 150 mil. 
Se o investidor quiser levantar o índice à força, na contramão da tendência de curto prazo, só perderá dinheiro.
Por outro lado, aquele que possui liquidez (importantíssima neste momento) e paciência está diante de nova oportunidade de uma vida.
Comprar por 100 algo que pode valer 150 é sempre uma ótima ideia.
Mas isso não é tudo, existem ideias ainda melhores.
Como referência, dê só uma olhada no que aconteceu com o compêndio das oportunidade de uma vida anteriores.
(Lembrando que rentabilidade de vidas passadas não implica necessariamente rentabilidade de vidas futuras.)
Quanto mais chove, quanto mais o mercado cai, melhores as chances de capturarmos um novo ativo com grande potencial de valorização.
De repente, as más notícias se tornaram frequentes, torrenciais, perderam valor marginal. 
Buenos Aires "defaultada" é capital não só do Brasil, mas de todos os emergentes.
Na contramão climática, uma singela boa notícia vinda do nada pode ser o que faltava para dizer que sim, a Bolsa brasileira continua baratíssima sim, para quem está tranquilo olhando a chuva subir.



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