Se quer paz, prepare-se para a guerra





Se quer paz, prepare-se para a guerra

Edição: Rafael Brandimarti


"Napoleão não precisava da conquista, mas propriamente da guerra como meio de excitação, como a embriaguez (…) A circulação sanguínea de Napoleão era irregular e extremamente lenta (…) Só no meio da guerra ele se sentia bem, seu pulso começava a bater regularmente e com velocidade normal."  
Esse é um trecho da "Crônica do Exterior", de Leon Paul, publicada pelo jornal Gólos em 7 de abril de 1865. Em alguma medida, pode ser visto como uma variação do clássico ditado romano "Si vis pacem, para bellum" (Se quer paz, prepare-se para a guerra), atribuído a Flávio Vegécio. Ou, quem sabe, até mesmo como uma alternativa para a antifragilidade talebiana. Precisamos amar a volatilidade. A partir do choque, podemos chegar a um resultado mais positivo. O crescimento não vem do marasmo, da ausência de risco, da não incorrência em estresse. "No pain, no gain." 
Eis um trecho do Day One da última quinta-feira: 
"Apesar de não achar que todos nossos problemas serão resolvidos com a visita chinesa aos EUA — na verdade, acho que só haverá um dia em que teremos resolvido todos os nossos problemas: quando deixarmos a vida —, ainda espero que seja evitado um grande desastre, com alguma notícia positiva na margem, sem escalada das tensões ou, ao menos, com algum compromisso, mesmo que parcial, no sentido de conter retaliações recíprocas adicionais." 
E eis um excerto de uma matéria do site InfoMoney do dia subsequente: 
"O Ibovespa fechou em alta nesta sexta-feira (+1,98%). A grande notícia do dia foi que Estados Unidos e China finalmente chegaram a um acordo comercial parcial."

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Por que recupero essas citações? 
Hoje, a julgar pelo comportamento dos mercados futuros, o Ibovespa deve interromper o otimismo e voltar a cair. O motivo? Indicações de que o governo chinês quer novas negociações antes de efetivamente formalizar a assinatura da "fase 1" do acordo comercial. O que era certeza na sexta-feira, de acordo com o Twitter de Donald Trump, agora passa a ser apenas uma (boa) possibilidade. 
Minha leitura — e essa é a mensagem central de hoje — aponta para a necessidade de um certo recrudescimento das relações antes do apaziguamento. Como um casal que fortalece o matrimônio só depois de uma consideração concreta do divórcio. Ou como um homem que passa a viver de forma mais intensa depois de uma experiência de quase-morte. Você precisa olhar o abismo para sair da direção dele. A presidente Dilma só sofreu impeachment porque, como resumiu brilhantemente Luis Stuhlberger à época nas foscas Páginas Amarelas, de fato, flertávamos com o precipício — bom, isso é assunto para uma outra hora. 
Se você lesse as manchetes na iminência das negociações concretas entre EUA e China, provavelmente concluiria que as coisas caminhavam bem mal. Trump aumentaria ainda mais as restrições às empresas de tecnologia chinesas, colocando-as numa lista negra. Também imporia regras mais rígidas aos imigrantes chineses. E novas tarifas estariam a caminho. A China, por sua vez, voltaria com sua comitiva na própria quinta-feira, já antevendo completo fracasso das negociações.  
Então, a conclusão óbvia seria vender seus ativos de risco. E, se você perdeu a sexta-feira, meu caro, isso pode fazer um grande diferencial em seu retorno anual — sim, poucos dias fazem a diferença. É por isso que você precisa aguentar o tranco. 
Não quero dizer, com isso, que as coisas estejam resolvidas em definitivo. Se a China pede novas conversas, aguardemos as novas conversas, com sabedoria e diligência. Aqui, felizmente, não sabemos o futuro. Como diria Amos Tversky, "é assustador pensar que você pode não saber algo. Mas é ainda mais assustador pensar que, de uma forma geral, o mundo é comandado por pessoas que acreditam saber exatamente o que está acontecendo". Ou, nas palavras de J. Kenneth Galbraith: "Nós temos dois tipos de previsores: aqueles que não sabem e aqueles que não sabem que não sabem". 
O comportamento dos mercados na semana passada nos oferece claramente lições materiais — nada de interpretação, suposições, ilações ou opiniões pessoais; são questões concretas mesmo, que devemos levar para sempre conosco. Depois de grande preocupação com as notícias ruins sobre baixa probabilidade de resolução para questões comerciais entre EUA e China, o Ibovespa terminou a semana passada com ganho de 1,25%; e por conta do otimismo com o acordo comercial. 
Corolário 1: cuidado com as manchetes de jornal. Estamos no meio de um processo negocial. Cada parte tenta puxar para si termos melhores. Quem desdenha quer comprar. Lembre-se do livro "A Arte da Negociação", do próprio Donald Trump: "Deprecie retoricamente seu ativo-alvo". Ele está nos dizendo publicamente como atua em processos negociais. 
Corolário 2: recrudescimentos das tensões podem não significar o que parecem num primeiro momento. Talvez só cheguemos a um acordo depois de analisar concretamente a alternativa, que é simplesmente nos jogar do precipício. E, lá embaixo, com recessão em 2020, Trump não se reelege e Xi Jinping, hoje listado entre os grandes líderes chineses ao lado de nomes como Mao Tsé-tung e Deng Xiaoping (esse último incluído nos estados do Partido Comunista apenas depois de sua morte; só Mao também atuou como "Grande Timoneiro"), pode não conter as pressões sociais. Vendas generalizadas causadas por notícias e especulações da imprensa podem abrir boas oportunidades de compra. 
Corolário 3: não há bala de prata. Não há, nem haverá resolução definitiva. A novela da guerra comercial, mesmo depois de eventualmente assinada a fase 1 do acordo, continuará no ar, com direito a vale a pena ver (e rever) de novo. Muita gente achou que a coisa estava resolvida na sexta. Não está, nem estará. Essa disputa vai ficar por meses e anos nos assombrando, porque ela envolve mais do que meses e anos de dominância tecnológica e hegemonia política, com a China tentando recuperar o protagonismo que exercia até 1820. Aprenda a conviver com isso. Investir não se trata de não correr risco ou encontrar um ambiente de marasmo e total previsibilidade. Os grandes retornos vêm justamente da escolha de ativos ou mercados sobre os quais paira uma certa nuvem e, conforme essa nuvem se dissipa, aparece o sol. É exatamente a mudança climática que promove o maior retorno. 
Corolário 4: se você entendeu que se trata de um jogo de longo prazo — espero que tenha entendido —, não adianta querer ter retornos de curto prazo. É uma impossibilidade lógica. Necessariamente vai haver retrocessos e volatilidade no meio do caminho. Olha a chuva… já passou… Vai ser essa a dinâmica. Muito ruído no meio de alguns poucos sinais. Amarre-se ao mastro e passe cera nos ouvidos. Assim atravessaremos a tempestade e resistiremos ao canto da sereia, apegados ao fundamento estrutural. Se a China quer conversar mais, ok para isso — sempre fui um sujeito aberto à conversa, com quem quiser. O meu mandarim está meio enferrujado, mas a gente dá um jeito. Olhando com a devida perspectiva, se percebe como estamos melhores hoje na questão da guerra comercial frente há uma semana.  
Mercados iniciam a segunda-feira influenciados pela predominância do mau humor externo, embora ainda tentem manter os ganhos da semana passada. As variações são modestas, ponderando a falta de certeza sobre um acordo entre EUA e China e algum otimismo com a melhora mais sistêmica.  
A balança comercial chinesa veio abaixo do esperado, mas dados de produção industrial superaram as projeções, impedindo maior preocupação. 
Por aqui, IBC-Br é o grande destaque do dia, com aumento de 0,07% na comparação mensal, frente a uma estimativa de 0,2%. Relatório Focus trouxe revisão da mediana das projeções para taxa Selic em 2020, de 5,00% para 4,75%. 
Ibovespa Futuro registra baixa de 0,05%, dólar tem leve alta e juros futuros caem em reação ao IBC-Br. 
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